Uma Noite de Decisões
Acabei me deixando levar pelo sono e dormi um pouco mais do que deveria. Quando finalmente acordei e olhei para o relógio, vi as mensagens do hospital: a operação estava marcada para às 11 horas da manhã. Já eram 9 horas.
Resolvi tomar um banho demorado. A água quente escorria pelo meu corpo, e ainda havia resíduos grudados nas coxas, remanescente do que tinha ocorrido enquanto eu dormia. Lavei com cuidado, mas a sensação não desaparecia.
Saí do banho, me encarei no espelho e vesti-me. Coloquei uma calça jeans escura, uma camisa de manga longa bege que escondia as tatuagens e deixava meu corpo discreto, além de um par de tênis confortáveis. Meu cabelo ruivo ficou solto e úmido. Meu rosto parecia cansado, com os olhos ligeiramente inchados.
Chamei um motorista por aplicativo e segui rumo ao hospital. Durante o trajeto, recebi uma mensagem da Ana:
— Amiga, você desapareceu. Estou preocupada.
— Estou indo para a cirurgia do Rafael.
Ela respondeu prontamente:
— Vai dar tudo certo. Te amo! Estou torcendo por você.
Enviei um emoji de coração em resposta.
Cheguei ao hospital com uma hora de antecedência. O médico me encontrou na recepção:
— Dona Luana, está quase na hora. Deseja vê-lo?
Fui acompanhada até o quarto onde Rafael estava deitado, ainda intubado, com a cabeça enfaixada e membros engessados. O peito subia e descia ao ritmo das máquinas que monitoravam seus sinais vitais. Beijei sua mão livre e deixei as lágrimas caírem; aproximei-me do seu ouvido e sussurrei:
— Te amo… estarei te esperando no quarto.
A hora da cirurgia se aproximava lentamente. Os minutos pareciam se arrastar interminavelmente enquanto olhava para o relógio, depois para a porta da sala cirúrgica, então checava meu celular novamente antes de voltar a olhar o relógio outra vez. Cada segundo parecia pesar como chumbo. O corredor parecia se alongar sem fim; o silêncio tornava-se ensurdecedor enquanto eu segurava firme a foto dele na mão tentando afastar pensamentos ruins.
Finalmente o médico apareceu com uma expressão tranquila no rosto.
— A cirurgia foi um sucesso! O traumatismo está sob controle; o inchaço cerebral diminuiu consideravelmente. Ele ficará bem! Ainda estará em coma induzido por algum tempo, mas vamos começar a retirá-lo aos poucos.
Um alivio imenso tomou conta de mim; minhas pernas tremiam levemente enquanto beijava a foto do Rafael que carregava comigo na bolsa e pensei pela primeira vez em dias:
Pagando os cinquenta mil à recepcionista eu falei:
— Assim que ele puder receber visitas, ligue pra mim.
— Claro! Mas provavelmente só será liberado amanhã — respondeu ela gentilmente.
Sentei-me numa cadeira no hospital enquanto mandava mensagem para Ana: — Ele saiu da sala cirúrgica! Deu certo! Ela respondeu rapidamente: — Que bom! Vou pra sua casa agora! Peguei o ônibus para casa depois de sair do hospital com um misto de alívio e preocupação crescendo dentro de mim quando cheguei no meu bairro; desci parada na rua em direção ao condomínio tranquilo sob as árvores ainda molhadas pela chuva recente; os prédios começando a iluminar-se à medida que caía a noite fria sobre nós novamente. O portão do condomínio abriu-se automaticamente através do reconhecimento facial; entrei devagar.