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Remanescentes - Capítulo 7 Reimaginado com Novos Nomes

✍️ Por Larissa Mendes 📅 09 de outubro de 2026 👁️ 4 visualizacoes 📖 8 min de leitura 📝 1406 palavras

Na manhã seguinte, enchi a garrafa na torneira da cozinha.

Esperei a água subir até a borda. Rosqueei a tampa, apertei e virei a garrafa de cabeça para baixo sobre a pia. Nenhuma gota escapou.

Eu não ia esquecer a água dessa vez.

O homem apareceu enquanto eu guardava a garrafa na mochila. Ele ficou encostado na porta, observando meus movimentos.

Ele assentiu e abriu o armário. Tirou um pacote de ração, examinou a embalagem e estendeu para mim.

A palavra saiu antes que eu pensasse. Guardei o pacote junto das roupas e fechei a mochila.

Ele parecia esperar alguma coisa. Um abraço, talvez. Fiquei com as duas mãos nas alças, olhando para o chão.

Quando a autorização de saída apareceu, fui até o portão.

— Lembre-se que aqui você foi bem tratada.

Não consegui responder.

Do lado de fora, a linha azul já me esperava.

________________________________________

O percurso até a Casa 892 levaria 1:17 minutos.

Abri o saldo enquanto andava. Havia uma nova notificação.

Créditos de Rodízio — Semana concluída na Casa 1342

Pagamento: +120 créditos.

Valor destinado à quitação do débito: 120 créditos.

Dívida restante: 4.474 créditos.

Saldo disponível: 0 crédito.

Parei de olhar para a calçada.

Eu tinha recebido pela semana. O dinheiro aparecia no histórico, registrado em meu nome, mas já havia sido recolhido.

A dívida diminuíra. Mesmo assim, eu não conseguia comprar uma garrafa de água.

Toquei a mochila, conferindo pelo lado de fora a garrafa que tinha enchido antes de sair, e continuei andando.

Perto de um posto de abastecimento, encontrei três mulheres esperando a passagem de um veículo de carga. Parei atrás delas. Uma carregava uma mala com uma roda quebrada. Outra tinha os cabelos presos com uma tira de pano.

A terceira olhou para minha mochila.

— Cuidado. Está abrindo.

Tirei uma alça do ombro e fechei melhor o zíper.

Ela segurou a garrafa enquanto eu organizava as coisas. Devia ter uns trinta anos. Havia uma cicatriz fina atravessando uma sobrancelha.

Ao lado do rosto dela, surgiu um nome.

O veículo passou, levantando poeira. As outras mulheres atravessaram.

— Você vai para qual? — ela perguntou.

— Oitocentos e noventa e dois.

Tatiane olhou para o outro lado da rua.

— Tem uma oficina bem na frente.

Esperei que dissesse mais. Ela ajeitou a própria bolsa e voltou a olhar para mim.

— Tem um quarto perto da cozinha. A janela emperra quando chove. Pede para ele abrir antes de escurecer.

Ela levou alguns segundos para responder.

— Comigo, foi tudo normal.

O aviso apareceu entre nós.

Ela se afastou para me deixar passar.

— Vai. Ainda dá tempo.

Atravessei a rua. Quando olhei para trás, ela já seguia em outra direção, puxando a alça da bolsa para cima do ombro.

Continuei repetindo o que tinha ouvido.

Comigo, foi tudo normal.

________________________________________

A Casa 892 tinha uma porta larga de metal e, ao lado, uma entrada menor. Atrás de uma grade, vi prateleiras cheias de peças, carcaças de aparelhos e rolos de fio.

A linha azul terminou diante da entrada menor.

Ouvi três batidas do outro lado. Depois algo pesado foi arrastado.

O homem que abriu a porta era baixo, de barba rala e cabelo quase todo branco. Tinha uma lente presa à armação dos óculos e uma mancha escura na manga.

Voltou para dentro antes que eu respondesse.

Fiquei na soleira, sem saber se devia entrar. Ele retirou um aparelho de cima de uma cadeira, pôs no chão e afastou um fio com o pé.

— Pronto. Pode passar.

O implante mostrou o nome dele.

Manutenção de equipamentos civis.

Entrei de lado para não esbarrar na bancada.

Havia um ventilador desmontado, duas luminárias e uma caixa de peças pequenas separadas por tamanho. O ar cheirava a metal e óleo queimado.

— O quarto fica depois da cozinha — ele disse. — O banheiro é em frente. A água de beber está na jarra tampada.

Eu acompanhava o movimento das mãos dele. As unhas estavam escuras de sujeira e havia uma cicatriz grande em sua mão.

Ele percebeu meu olhar e baixou as mãos.

— Tem alguma pergunta?

Tinha tantas que não consegui escolher nenhuma.

Então me lembrei de Tatiane.

— A janela do quarto abre?

Roberto olhou para o corredor.

— Abre. Está prendendo um pouco.

Passou por mim e foi até o quarto.

Ouvi a madeira raspar. Depois um estalo.

Quando cheguei à porta, ele já estava saindo.

O quarto tinha uma cama estreita, uma cadeira e um armário sem uma das portas. A janela dava para um pequeno quintal cercado por muros. Num canto, havia três latas com plantas.

Por dentro, perto da maçaneta, havia um trinco.

— Pode usar — Roberto disse.

Virei o rosto depressa.

Ele apontou para o corredor.

— Vou estar na oficina.

Esperei que se afastasse. Entrei, pus a mochila na cama e fechei a porta.

Empurrei o trinco até o fim.

Depois puxei a maçaneta, só para conferir.

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Acordei com duas batidas na madeira.

Sentei tão rápido que senti uma pontada no corpo.

— Larissa? Tem comida no fogão.

Olhei para a janela. A luz tinha mudado de lugar.

Eu nem lembrava de ter deitado.

Esperei os passos se afastarem antes de abrir.

Na cozinha, havia uma panela tampada e um prato ao lado. Roberto comia em pé, junto à pia. Quando me viu, pegou o próprio copo.

— Vou terminar lá na frente.

A comida era arroz misturado com lentilhas. Servi pouco. Depois olhei para a porta da oficina e coloquei mais uma colher.

Comi esperando ouvir meu nome.

Quando terminei, lavei o prato, a panela e os talheres. Estava procurando um pano quando Roberto entrou com o copo vazio.

— Onde fica a vassoura? — perguntei.

— Atrás da porta. Mas pode deixar isso para amanhã.

— Você está precisando de alguma coisa?

Era a resposta mais fácil. A que eu tinha dado aos funcionários da instalação sempre que queriam encerrar uma conversa.

— Preciso saber as regras.

Roberto puxou uma cadeira, mas não se sentou.

— Não mexer nos aparelhos ligados. Nem tirar peças e ferramentas do lugar. E se tiver dúvida, me chama.

Ele olhou para minha cara e disse.

Baixei os olhos antes que respondesse.

— À noite eu fecho a oficina — disse. — Você pode ficar no quarto.

Esfreguei uma mancha na beirada da pia.

— Eu não tenho créditos. Falei olhando para baixo.

— A comida já chegou.

— Mas eu não consigo pagar.

A mancha não saía. Continuei esfregando até ele se afastar.

________________________________________

Passei boa parte da tarde no quarto.

Não dormi de novo. Fiquei sentada na cama, olhando as latas do lado de fora. Numa delas crescia uma planta de folhas pequenas, muito juntas. Tentei lembrar se a tinha visto no livro da Casa 19.

Perto do fim da tarde, o som da oficina parou.

Ouvi Roberto mexendo na cozinha. Depois, uma cadeira arrastando no quintal.

Ele estava diante das plantas, despejando um pouco de água em cada lata.

— O que é essa? — perguntei.

— Essa aqui? Manjericão.

Aproximei-me apenas o suficiente para enxergar melhor.

Roberto tocou uma folha e mostrou os dedos.

Estendi a mão. Passei a ponta dos dedos numa folha, como ele tinha feito, e levei ao nariz.

O cheiro me lembrou uma comida que eu não sabia nomear.

— Quase matei essa no mês passado — ele disse. — Falta de tempo para cuidar.

Olhei para o fundo da lata. Havia pequenos furos junto à terra.

— Eu queria ter feito um curso.

— De cultivo em espaços pequenos.

— Precisava guardar os créditos.

Ele deixou o recipiente no chão.

Ficamos algum tempo em silêncio.

— Posso perguntar uma coisa? — falei.

— Você conserta implantes?

Roberto tirou os óculos e limpou uma das lentes na camisa.

Minha mão caiu ao lado do corpo.

— Só conserto alguns terminais antigos que conversam com eles — acrescentou. — Leitores de entrada, painéis de abastecimento. O implante mesmo é outro serviço.

Olhei para a porta do quintal.

— Então você sabe o que eles conseguem ver?

Ele recolocou os óculos.

— Os homens das casas.

Roberto pensou por um instante.

— Algumas informações de chegada. Nome, idade, autorização de permanência. Avisos médicos, quando o sistema libera.

Pensei na Casa 1286. Na mão apertando meu braço.

— E sabem quando a gente mente?

Ele demorou a responder.

— O meu implante não mostra isso.

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