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O Reflexo do Vidro e a Conexão Prateada

✍️ Por José Silva 📅 13 de outubro de 2026 👁️ 0 visualizacoes 📖 4 min de leitura 📝 705 palavras

CAPÍTULO I — O REFLEXO DO VIDRO E A CONEXÃO PRATEADA

A luz do entardecer no Rio de Janeiro se extinguía sobre o horizonte de Copacabana, inundando a paisagem com tons de âmbar, roxo e um dourado denso, quase palpável, na superfície interminável do Atlântico. A câmera começa seu movimento em um plano amplo, capturando o movimento rítmico das ondas que acariciavam a areia da Praia do Leme, subindo lentamente pela silhueta dos coqueiros à beira-mar até focar na fachada impressionante e envidraçada de um dos edifícios mais luxuosos da Avenida Atlântica. A lente desliza verticalmente, ignorando os andares inferiores, até alcançar a cobertura duplex. Através dos grandes painéis de vidro termoacústico da sala de estar, a opulência minimalista interior — caracterizada por móveis contemporâneos italianos, mármore travertino e esculturas modernas — se fundia com a vista natural da orla. Ao fundo, uma melodia suave de jazz executada por um piano distante preenchia o ambiente.

Entretanto, o vidro tinha uma função adicional. Quando a luz exterior diminuía, refletia o interior da cobertura com uma clareza quase cruel: a mesa arrumada, os livros dispostos no aparador, os brinquedos deixados para trás por Lara e, próximo à porta do escritório, uma tela discreta que exibía imagens das câmeras distribuídas pela propriedade familiar. Para quem entrava pela primeira vez na casa, aquele equipamento parecia parte de um sistema convencional de segurança. Para Bruno, era um símbolo tangível de uma promessa feita anos atrás diante de um caixão: nunca mais seria pego desprevenido.

Na tela, o portão da garagem se abriu para receber o carro de um morador. Bruno observou a manobra com atenção; reconheceu o motorista e voltou ao reflexo no espelho. Não percebeu que havia feito isso. A vigilância se tornara tão automática quanto ajustar o relógio no pulso.

No quarto principal, as sombras eram cortadas apenas pelo brilho prateado do entardecer refletido nos espelhos do closet. Bruno Henrique Silva ainda estava parado diante do espelho grande. Aos 40 anos e medindo 1,87m; seu corpo definido sem exageros era resultado de anos dedicados ao esporte; exibia ombros largos e um abdômen tonificado onde alguns fios brancos começavam a surgir entre os cabelos castanhos. Ele acabava de abotoar uma camisa branca feita em linho quando seus dedos hesitaram no terceiro botão. Seus olhos castanhos fixavam-se em um vazio profundo enquanto sua mente lidava com as complexidades que envolviam seu império logístico e comercial.

O sussurrar suave da seda quebrou o silêncio ao redor dele. O reflexo de Gisela apareceu no espelho enquanto ela se aproximava com passos deliberadamente lentos e silenciosos. Vestia apenas um roupão negro feito em seda que contrastava fortemente com sua pele morena bem cuidada. Aos 35 anos e medindo 1,68m; Gisela possuía traços finos e uma beleza aristocrática que fazia questão de disfarçar nas rotinas diárias dos tribunais. Seus cabelos escuros caíam desordenadamente sobre os ombros dela. Sem pronunciar uma palavra sequer, deslizou suas mãos pelas laterais da cintura do marido abrindo espaço sob os braços dele enquanto apoiava seu rosto suave contra suas costas largas.

— Ainda pensando em trabalho? — sussurrou ela suavemente como se fosse apenas um sopro quente contra o tecido fino.

— Em várias coisas — respondeu ele sem virar-se imediatamente.

— Na reunião agendada para amanhã? Na Lara querendo que o vestido da escola tenha bolsos? E naquele caminhão que saiu do centro logístico tendo seu manifesto corrigido três vezes?

— A Lara tem razão sobre os bolsos — disse Gisela. — E esse caminhão pode esperar dez minutos.

Ele riu finalmente voltando-se para ela; Gisela detinha a incrível capacidade de desarmá-lo espontaneamente. Não era condescendência; na maioria dos dias enfrentava-o com firmeza que nenhum diretor poderia replicar sem hesitação alguma; mas sabia reconhecer quando ele estava prestes a confundir responsabilidade com controle.

— Eu só tenho sorte mesmo — disse Bruno com voz profunda ressoando pelo quarto silencioso.

Gisela arqueou uma sobrancelha como se estivesse avaliando sua resposta cuidadosamente: — Isso foi romântico demais para alguém que passou todo o jantar anterior discutindo custos operacionais.

Ele então inclinou-se para beijá-la; primeiro trazia familiaridade como quem conhece cada sutileza daquela pessoa; depois vinha selado pela urgência alegre onde apesar dos sete anos juntos ainda encontrava formas surpreendê-la genuinamente.

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