Um Dia Especial
— E aí, você está preparado, pai? — Estou — Então, vamos! E assim partimos, eu usando um vestido marrom justo e ele com uma calça jeans amarela e uma camiseta cinza para assistir a um filme. Chegamos de mãos dadas, como um casal. Subimos os degraus até as cadeiras no alto da sala. Nos acomodamos em um espaço que tinha apenas quatro poltronas. Ao nosso lado não havia ninguém e eu apertei o braço do meu pai, sentindo a aspereza familiar de sua pele, os pelos brancos que já conhecia tão bem.
— Você está nervoso? — sussurrei. — Um pouco. Nunca pensei que fosse tão escuro aqui, filha. Quando as luzes se apagaram e a tela enorme se iluminou, notei o brilho azulado refletido em seu rosto. Ele parecia fascinado, com os olhos brilhando como os de uma criança diante de uma tela tão grande pela primeira vez. Minha mão descansou sobre sua coxa. Ele envolveu minha mão com a dele, dedos grossos entrelaçando-se aos meus na escuridão. A cada cena éramos tomados por emoções: ríamos e chorávamos ao entender os dilemas dos personagens, pois vivenciamos algo semelhante.
Mas também nos abraçávamos e trocávamos beijos como o casal da tela. Duas semanas depois, o barzinho na esquina da rua São Pedro fervilhava numa sexta-feira à noite. Pedi dois chopes e uma porção de bolinho de bacalhau. Meu pai vestia a camisa azul que comprei para ele no mês passado, com os botões superiores abertos.
— Você está bonito hoje — disse eu inclinando-me sobre a mesa. — É mesmo? — Ele tocou o colarinho sem jeito. — Achei que estava muito arrumado para um boteco. — Que papo é esse, pai? Você está ótimo! Não percebeu como mudou desde que veio morar comigo? Eu mencionei que ia te colocar na linha rsrs Antes que ele pudesse responder, ouvi uma voz cortando o som do bar.
Escutei meu nome seguido de: "Meu Deus! Quanto tempo!" Era Cláudia, amiga da faculdade que não via há ages; chegou me dando um abraço apertado e exalando um perfume forte demais. Sentou-se sem ser convidada e pediu uma caipirinha enquanto olhava para mim e meu pai alternadamente.
— Quem é esse senhor? É seu namorado? — Cláudia indagou com olhar curioso. Eu olhei para meu pai e ele fez o mesmo comigo; ambos ficamos sem saber o que dizer. "Não, ela é minha filha", meu pai foi mais rápido nas palavras — Desculpa aí amiga! É só porque vocês têm uma energia tão diferente...
— Como assim colega!? Perguntei confusa. — Sei lá amiga, não consigo explicar direito. Conversa vai e conversa vem enquanto nós deixávamos escapar relatos da nossa rotina em casa até ela soltar outro comentário: — Nossa! Do jeito que vocês falam parece até casal! Meu coração disparou instantaneamente; senti calor subir pelo meu pescoço até as orelhas.
— Que bobagem isso Cláudia — tentei rir forçando um sorriso.No entanto meu pai apenas sorriu também à medida que sua mão encontrava minha coxa por baixo da mesa num gesto rápido como quem diz: "Calma." Voltamos pra casa imersos em pensamentos complicados sobre essa situação estranha entre nós dois.
"Que houve filha?" "Sabe pai... tá ficando difícil esconder que somos mais do que somente pai e filha." Ele sorriu compreensivo "É complicado... mas tem algo permanente nessa relação: independente do resto do mundo você sempre será minha menina... isso é tudo que importa aqui fora." Ele estava certo; às vezes era apenas meu subconsciente me guiando ignorando essa conexão distinta entre nós dois; esse ano se aproximava seu aniversário e eu queria fazer algo especial para ele.