Entre Segredos e Verdades
Quando Vitor Almeida entrou no armazém pela primeira vez, entendeu o motivo pelo qual a célula havia conseguido se manter oculta por tanto tempo sem gerar uma reação explícita das autoridades.
Não havia sentinelas armadas nas entradas, homens utilizando rádios de forma evidente ou qualquer sinal que pudesse indicar que aquele conjunto de galpões nas redondezas de Tânger interessava a serviços secretos de vários países. Caminhões entravam carregando produtos comuns, colaboradores empurravam carrinhos entre montes de caixas e um pequeno escritório administrativo gerenciava notas fiscais, manifestos e reclamações de motoristas que pareciam idênticas às de qualquer transportadora legítima.
O perigo residia precisamente naquela aparente normalidade.
Vitor chegou acompanhado por Hamid Bouhassoune, um comerciante que conhecera meses atrás em Argel e que, sem nunca suspeitar da verdadeira função do brasileiro, tornara-se uma ponte importante para a infiltração. Hamid importava equipamentos industriais, peças automotivas e materiais elétricos. Ele também conhecia pessoas que conheciam outras pessoas, e esse tipo de vínculo era mais valioso para Vitor do que qualquer documento obtido ilegalmente.
— Eles querem qualidade francesa pagando preço argelino — lamentou Hamid enquanto atravessavam o primeiro galpão.
Vitor segurava uma pasta com catálogos sob o braço.
— Todo comprador acredita ter encontrado uma exceção às leis do mercado.
— Você fala assim porque não precisa negociar com meu irmão.
— Meu irmão pensa que desconto é um direito inalienável.
A conversa prosseguiu naturalmente enquanto Vitor absorvia o ambiente. Duas áreas principais de armazenamento, um pátio lateral para veículos menores, uma sala elevada onde era possível observar a movimentação e um corredor estreito que desaparecia na parte posterior da estrutura. Não havia razão comercial visível para tanta preocupação com acessos separados, mas isso não era suficiente para comprovar algo.
Vitor também reconheceu três rostos já vistos em fotografias obtidas por vigilância francesa e espanhola.
O quarto rosto era familiar de outra maneira.
O primo de Samira estava perto de uma mesa, discutindo algo com dois homens sobre um manifesto de carga. Vitor continuou ouvindo Hamid como se não tivesse notado sua presença.
O homem levou poucos minutos para reconhecê-lo.
Aproximou-se sem sorrir.
— O primo preocupado.
Hamid soltou uma risada que morreu ao perceber que o outro homem não achara graça alguma na situação.
Vitor estendeu a mão,
O cumprimento foi breve.
— Você ainda está em Tânger — comentou o primo.
— Meus clientes continuam cometendo o erro de pagar as minhas contas.
O homem abriu um dos catálogos.
— O que você vende exatamente?
Vitor apontou para a página.
— Geradores pequenos, peças para equipamentos frigoríficos e alguns componentes elétricos. Amanhã posso vender outra coisa, não me levaria muito tempo — respondeu ele — . A mudança no rosto do homem foi sutil. victor fechou devagar a pasta.